Jan 14 2013

Entrevista com Walter Goulart

Foto: Beatrice Sasso

Walter Goulart é um dos profissionais do som cinematográfico mais experientes do Brasil em atividade. Com mais de 50 anos de carreira e uma centena de filmes no currículo, é pioneiro da captação e da engenharia do som no país. Destaque para seu trabalho sonoro nos filmes O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1969), Pindorama (Arnaldo Jabor, 1971), São Bernardo (Leon Hirszman, 1972), Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976), dentre muitos outros.

Artesãos do Som: A quanto tempo o senhor trabalha com som direto?

Walter Goulart: Eu estou a 53 anos trabalhando com cinema. O cinema faz parte da minha vida e eu também faço parte da vida do cinema no Brasil. Porque eu não só trabalhei com som direto, como também em outras áreas. Eu comecei como assistente de fotografia, do fotografo cinematográfico Silvio de Abreu, depois trabalhei como ator, dirigi teatro infantil na televisão… Então, eu nunca trabalhei só com som. Eu geralmente trabalho com som, com edição, com montagem, com trilha, me arrisco às vezes fazer efeitos musicais, assistencia de direção… Quando você faz assistência de direção você é um co-diretor. Você prepara todo o set com o diretor de arte, com o diretor de fotografia, prepara os atores nas marcações e entrega ao diretor…

 

A.S.: O senhor já fez mais de uma dessas funções em um mesmo filme?

Walter Goulart: Já. Tem filme que eu fiz som, edição de imagem… o editor, quando tem uma boa relação com a direção, tem autonomia pra fazer o corte final. Outra vez eu fiz foco e som. Com uma mão eu fazia a foco e na outro dava o rec pra gravar o som guia. Porque era som guia nessa época, né? Pra depois você ir pro estúdio e gravar a dublagem. Antes, tinha filmes que alguém ficava escrevendo e anotando os diálogos na hora da cena. Se não, tinha que contratar outra pessoa pra fazer leitura labial depois, principalmente em casos que os atores improvisavam muito em cena e era fácil ficar perdido.

 

A.S.: Você chegou a exercer essa função de escrever ou anotar os diálogos em cena?

Walter Goulart: Não, não. Eu comecei em um estúdio e fiz muito foley pra banda internacional. Com isso, fui aprimorando o trabalho com foley. Eu e o Geraldo José, com quem trabalhei muitos anos junto.

 

A.S.: Como exatamente o senhor começou a trabalhar com som?

Walter Goulart: Fui contratado numa empresa de dublagem de filmes para tv para complementar os ruídos do filme, e isso se fazia junto com os dubladores no ato da gravação. Dentro da mesma empresa, passei a assistente de mixagem com o espanhol Don Carlos de la Riva que foi meu mestre e posterior sócio na Tecnison Estúdios Cinematográfico e na Delart Estúdios.

 

A.S.: Como você conheceu e começou a trabalhar com o Geraldo José

Walter Goulart: O Geraldo José era operador de áudio na Rádio Roquete Pinto no horário noturno. Em uma noite dessas eu fui fazer a sonoplastia de uma novela de rádio. Em depoimentos do próprio Geraldo, ele conta que ao me ver trabalhando, pensou: “esse garoto da pro negócio”. E aí me convidou para fazer o foley (ruido de sala) dos próximo filmes. E trabalhamos muitos anos sonorizando e criando ambientação, gravando externas para as sequencia dos filmes longa e curtas.

 

A.S.: O senhor já trabalhou como microfonista?

Walter Goulart: Teve um filme “O Homem das Estrelas” produzido pela Deluxe que era uma produção francesa… e veio um técnico de som direto francês. Eu trabalhei junto com ele, mas ele se embolava muito com os cabos e tudo mais. Aí acabou que ele foi apertar o rec e eu fiquei com o microfone. Depois eu fiquei sabendo que ele só tinha feito documentários. Nessa época eu já tinha experiência de colocar o microfone no eixo, decorar o texto pra você saber onde e quando posicionar o microfone aéreo… Eu só uso microfone aéreo, não gosto de usar lapela. Se você ver os filmes que eu trabalhei vai perceber que ele tem um som diferente, porque eu trabalho com profundidade sonora… Eu gosto muito disso. Assim, a voz da personagem passa a existir naquele imagem. Tipo no “São Bernardo“, no “Pindorama“… tudo som direto. No “São Bernardo” não tem nada de estúdio, a não ser a mixagem. Até a música foi feita em cima da imagem, só com o canto de Caetano Veloso. Em relação a microfonista, até hoje, se eu ver que é uma situação mais delicada, eu prefiro fazer o micro no boom e meu assistente vai pra mesa.

 

A.S.: De onde surge esse conceito sonoro? É uma decisão estética sua ou dos diretores com quem você trabalha?

Walter Goulart: Esse conceito vem a partir do conhecimento que você tem com o diretor. Uma vez que você tem uma boa relação com o diretor ele te dá plena liberdade. E isso aconteceu com o Glauber Rocha, por exemplo. Antes de filmar “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” em som direto, fui informado que o Glauber tinha feito um teste de um longo plano sequencia, para ver se os diálogos se mantinham em sinc. Durante as filmagem o Glauber jamais pediu para ouvir o som, e eu achava estranho. Isso vêm de uma relação direta com o diretor, com os assistentes, com a fotografia… Porque é importantíssimo você ter uma boa relação com o câmera, o fotógrafo e a direção. Porque não dizer, um bom entendimento com toda equipe. O conceito do som parte de leituras do roteiro junto com o diretor e seu primeiro assistente, por exemplo, em “Guerra Conjugal“, o diretor Joaquim Pedro de Andrade não queria música de pontuações. Após ver as locações, foi decidido que o ambiente teria a função dramática na composição sonora. A música escrita pelo Ian Guest entra nos créditos iniciais, na sequencia que toca no rádio e nos créditos finais. “Guerra Conjugal” eu não tive assistente, era microfone no boom, e o Nagra a tira-colo.

 

A.S.: E como você conquistou isso com esses diretores?

Walter Goulart: Na nossa época nós tínhamos sempre reuniões para falar de cinema no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A cabeça do Cinema Novo foi criada lá, por exemplo. Todo mundo se encontrava lá para falar de cinema. Ver filmes na cinemateca, diretores, técnicos… era um clã de jovens mesclado com diretores com mais bagagem presente e atuante como o crítico, escritor e diretor Alex Viani querendo fazer cinema, e se discutia muitas coisas. Eu também tive um estúdio de som dentro do MAM que era a Tecnisom, onde fizemos muitos filmes, em especial ajudava os novatos a concluir seus curtas metragem.

Hoje está mais complicado. Você vai para uma universidade estudar cinema e se você não tiver bons professores que fizeram ou ainda fazem cinema, você vai ficar só na teoria e na história. Você tem que ter todos os conhecimentos que abrange a cinematografia, na universidade não forma cineasta, ao sair da escola o aluno tem fazer estágios em varias funções. É importante você saber a história do cinema mundial… A linguagem do cinema brasileiro tem muita relação com o cinema italiano, um pouco com o cinema francês e não temos nada a ver com filme americano. Mas pra trabalhar com a realização você precisa de muita prática, muito amor no que faz ou pretender fazer parte do clã da sétima arte.

 

A.S.: Conte um pouco da experiência de trabalho no “O Dragão da Maldade”, primeiro filme de ficção no Brasil que foi rodado com som direto na rua…

Walter Goulart: ”O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” foi o primeiro longa de ficção rodado no Brasil. Antes, o Arnaldo Jabor fez o som do documentário não-ficção “Maioria Absoluta” do diretor Leon Hirszman. No “Cantos de Trabalho: Mutirão” o som direto foi feito por Francisco Balbino, que fazia de tudo… assistência de câmera, elétrica e o som. José Antonio Ventura além de fotografia, grava o som também.

Com referencia ao “Dragão da Maldade“, meu amigo Luiz Carlos Saldanha um dia me perguntou se eu queria fazer o filme do Glauber. Como eu ia entrar de férias do estúdio Rivaton, veio aí a minha oportunidade de sair de estúdio e passar para o set exterior. Eu não tinha o conhecimento do gravador. Me apresentaram ao Nagra lll, um gravador mono, fita de 1/4, com uma entrada de microfone dinâmico e mais uma entrada auxiliar. Um cabo ligado do gravador à câmera recebia um sinal de 60hz “PILOTON“, que no estúdio ao retranscrever para fita perfurada, o Nagra era acoplado a um aparelho que analisava o sinal gravado com o sinal de 60hz da rede elétrica. Assim era mantido o sincronismo. O PILOTON era o timecode da época. Em Milagres, cidade do sertão da Bahia e o set de Dragão da Maldade, o vento era o meu inimigo. Improvisei uma camisinha de espuma de baixa densidade para não prejudicar a qualidade do som. Nos interiores eu usava os cobertores da equipe, colocando-os no teto para reduzir a reverberação. Tudo isso com ajuda do meu assistente Diego Rueda que também foi meu parceiro em “Pindorama” do Arnaldo Jabor.

 

A.S.: Como você analisa o processo de evolução tecnológica com o som ao longo da sua carreira? 

Walter Goulart: A evolução da nova tecnologia não só do som mas também em outra áreas como montagem, edição, efeitos sonoros… Assim como os Laboratórios tiveram que se adaptar às novas tecnologias. As salas tiveram que investir nos projetores com leitura de som digital e mantendo o analógico para as salas não digitais. O público reclamava do som do filme brasileiro, que era ruim, e não se entendia nada. Até certo ponto tinham razão, tinha que ver o filme sem legenda, só ouvindo, e a reprodução amplificada era péssimo. Nem o filme estrangeiro se não tivesse a legenda não se entedia. O som das salas eram precárias, o leitor ótico sujo de parafina liquida ou óleo. Os donos dos cinemas não se importavam ou não tinham conhecimento do que acontecia em suas salas de exibição. No campo de trabalho, creio que deve tomar as precauções ao gravar em digital. Os parâmetros do som são diferentes do analógico. No digital, o máximo seria menos 12 dB. Além deste limite tem toda possibilidade de “quadrar” a curva, provocando distorções. E no analógico o máximo é o Zero dB, mas por segurança se grava em menos 7 dB, por exemplo. E aconselho aos técnicos a não usar compressor no ato do registro do som direto. Deve-se evitar ao máximo o uso de processamentos, etc… devemos ter o som sem interferências afim de se ter um melhor tratamento do som na mixagem.

 

A.S.: Quais equipamentos você usa hoje? Tem alguma preferência de gravador ou microfone?

Walter Goulart: Usamos o gravador da Tascan de seis canais que grava no card e depois se faz o logo para o computador. Em seguida é armazenado em dois HDs, com cores diferente: vermelho e azul. O vermelho é o bruto e o azul são os planos indicados como válidos para montagem. Dois microfones direcional 247 da Sony, quatro mini-micro lapela que é usado como suporte em casos de situações difíceis. Em locação interna gravo direto no Pro Tools usando uma mesa de oito canais.

 

A.S.: Qual dica ou sugestão o senhor daria pra quem pretende começar a trabalhar com som e cinema hoje?

Walter Goulart: Bom, acho que educação cabe em qualquer lugar. O comportamento do técnico no set de filmagem é importante para o bom andamento do filme. Não podemos esquecer que somos uma equipe, uma engrenagem que move toda a estrutura da filmagem. Por exemplo: o diretor de som e sua equipe falam o mais baixo possível. Com esse comportamento, praticamente os demais da equipe vão entrar na boa onda. O diretor de som ao se dirigir aos atores, deverá ir próximo e baixinho, dar suas instruções para uma fala que não esta bem audível. Evidente, com a participação do diretor do filme. É dever do técnico de som cuidar dos atores para que se tenha um bom rendimento no ato do registro do som, até mesmo quando não está se filmando. Um bom trabalho a todos, e que viva o nosso Cinema Brasileiro.

 

5 Responses to “Entrevista com Walter Goulart”

  • Tide Borges Says:

    Nosso querido mestre, sempre nos ensinando. Parabéns pela entrevista, Bernardo!

  • Eduardo Says:

    Tive a oportunidade de trabalhar com o Goulart há alguns anos. Fui assistente dele num 35mm (acho que era Marco Big Mattos o diretor). Nunca vi esse filme. Trabalhei com ele também no Contraponto 2, de Aloisio Didier. Goulart é uma escola viva. De certa forma ele me deu a primeira oportunidade em televisão (onde estou até hoje). Infelimente nunca estudei com ele na Darcy ou na Gama, mas tenho certeza de quem o fez se deu muito bem.

    obs: tem uns erros na transcrição do texto da entrevista. Ficará melhor de ler se consertarem. Abç!

  • Cristiano Requião Says:

    Grande Goulart…

    Foi o homem do som direto, e aquele que sussurrava dicas no meu ouvido colocando para mim a bola na marca do pênalti… Fizemos juntos o filme longa-metragem Outro Olhar, totalmente em som direto e que som!!! Goulart foi o meu braço direito, alguém que é pau-pra-toda-obra… Trabalhar com ele é um prazer à parte!!! Maravilha conhecer um pouco mais da sua história… Abraços!!!!

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